A Torá e o Jeitinho Brasileiro

click-fraud3Recentemente li uma notícia sobre clientes indignados porque uma companhia aérea cancelou (embora tenha voltado atrás) bilhetes que foram emitidos com 80% de desconto. Desconto esse que era aplicado através de um código que foi roubado e vazado nas redes sociais. Tal ameaça de cancelamento resultou na fúria dos clientes que fizeram uso de tal código e agora se mostram indignados.

Pode até ser que haja alguns casos de pessoas que verdadeiramente fizeram uso do código de boa fé. Porém, a maioria das pessoas sabia muito bem o que estava fazendo. Até porque várias dessas comunidades de ‘descontos’ que divulgaram o código se gabam a céu aberto de suas ‘espertezas.’

Não quero aqui dar uma de advogado das companhias aéreas, e sei que existe muita esculhambação em todo o setor, além de fatos reais de descaso com o cliente, mas gostaria de comentar especificamente sobre esta situação. Porque ela ilustra muito bem o pensamento do brasileiro.

Em 1968, Jacques Lacan disse um frase bastante indigesta ao movimento revolucionário estudantil: “Como revolucionários, vocês são histéricos que demandam um novo mestre. Vocês ganharão um.”

A crítica, teorias psicanalíticas à parte, era fundamentalmente a de que os estudantes não buscavam um novo modelo. Apenas uma reciclagem das pessoas que ocupavam as velhas estruturas de sempre.

Por motivos semelhantes, tenho muito pouca esperança na melhora do Brasil. Pode até ser que o poder aquisitivo melhore, pois o país é riquíssimo e está em reta de crescimento. E mesmo com concentração de renda, alguma coisa sempre permeia para as classes mais baixas. Mas me refiro aqui a uma mudança real nas estruturas do país. Creio que nenhum de nós viverá para ver tal coisa.

Porque o pensamento típico do brasileiro, esteja ele onde estiver, costuma ser: “Como posso me dar bem, com o menor esforço possível?” Os que reclamam da roubalheira do governo muitas vezes são os mesmos que compram produtos piratas na banquinha da esquina, e sonham em ser funcionários públicos não por vocação, mas para poderem se encostar num emprego estável onde ninguém lhes perturbará. Fato confirmado pelos poucos e honrosos funcionários públicos que efetivamente trabalham e que, não raro, queixam-se da sobrecarga gerada porque os que trabalham precisam carregar os encostados.

Num país onde todos querem se dar bem, até a teologia é adaptada e adequada para justificar esse comportamento. O que é o “você é vencedor e o Senhor irá tirar da frente quem tiver no seu caminho” senão uma reedição do egocentrismo através de belos chavões?

Lacan tinha razão: Poucos querem mudar as velhas estruturas. A maioria quer apenas mudar de lugar nas velhas estruturas. O cliente que reclama dos direitos do consumidor até reclama com razão. Mas o que dirá quando na realidade quer tanto se dar bem quanto a empresa de quem se queixa? Acaso não prova que, tanto quanto a empresa de quem se queixa, ele também quer se dar bem, mesmo que para isso o outro se prejudique?

Isso, claro, sem contar no prejuízo a terceiros. Porque uma empresa lesada em seus lucros precisará fazer cortes. E esses cortes prejudicarão alguém.

Por essa razão, eu creio que só existe uma coisa capaz de fazer frente à imundícia que é a cultura do jeitinho brasileiro: a Torá de YHWH.

Como deveria agir uma pessoa que crê na Torá de YHWH nesse caso?

Primeiramente, a Torá diz:

“Não furtareis, nem mentireis, nem usareis de falsidade cada um com o seu próximo;” (Vayicrá/Levítico 19:11)

Fingir ser o receptor legítimo de algo que não foi direcionado a você é falsidade. E usar de tal falsidade para pagar menos não é diferente de um furto. O fato de você remover o dinheiro do bolo antes de entregá-lo ao outro por um serviço prestado não anula o fato de que você roubou o outro.

Mesmo quando o outro por ingenuidade, ou mesmo incompetência (acredito que possa ter sido esse o caso), não percebe o valor faltante e/ou, por ignorância dos fatos, aceita receber menos.

Segundo, a Torá continua e diz:

“Não farás injustiça no juízo; não favorecerás o pobre, nem honrarás o poderoso; com justiça julgarás o teu próximo.” (Vayicrá/Levítico 19:15)

Ou seja, o certo para um, é certo para todos. E o mesmo vale para o que é errado. O fato de uma das partes ser rica não deve influenciar no juízo de qualquer assunto. Em suma, não é porque a empresa é grande e rica que o consumidor estará sempre certo em qualquer questão contra ela. E, nesse caso, a empresa aérea foi lesada.

Também o fato de que a empresa aérea também lesa os seus clientes com mau atendimento, tarifas altas, ou seja o que for, também não pode ter influência sobre o julgamento deste fato em particular. Não que tais coisas não mereçam atenção, ou mesmo condenação. Mas são coisas distintas e que devem ser avaliadas distintamente. Um erro não justifica o outro.

Terceiro, existe um princípio fundamental que governa a Torá:

“Se foi um chefe quem pecou, cometendo involuntariamente uma ação proibida por um mandamento de YHWH seu Elohim, tornando-se assim culpado, trará para sua oferta um bode sem defeito, logo que tiver tomado consciência de seu pecado.” (Vayicrá/Levítico 4:22-23)

“Se alguém, por descuido ou irreflexão, jurar fazer qualquer coisa de bem ou de mal, logo que se der conta disso, será culpado, qualquer que seja o juramento inconsiderado.” (Vayicrá/Levítico 5:4)

A Torá reconhece que nem sempre tomamos conhecimento de nossa participação num ato equivocado ou pecaminoso. Porém, juntamente com o conhecimento do mal que foi feito, vem a responsabilidade.

O que significa que uma pessoa que de boa fé adquiriu a passagem em tais condições deveria imediatamente cancelar o bilhete, e optar por não tomar parte no mal. Pois YHWH responsabiliza aquele que, conhecendo o bem, opta por fazer o mal.

Certa vez me recordo de um conhecido que, ao ter uma peça de seu carro furtada, foi adquirí-la por preço mais barato numa loja suspeita de ser revenda de peças de desmanche de carros roubados. Se já é fácil fechar os olhos para isso, é mais fácil ainda quando tudo é feito com cliques de um mouse, sem que sequer se saiba o que ocorre com as vítimas.

E, por fim:

“Quando houver contenda entre alguns, e vierem a juízo, para que os julguem, ao justo justificarão, e ao injusto condenarão.” (Devarim/Deuteronômio 25:1)

A empresa aérea até pode merecer ser censurada por sua desorganização, se for o caso (não conheço os detalhes sobre o vazamento em si). Mas daí a condená-la a arcar com os prejuízos e resolver o problema, como esperam os clientes, é exigir que o inocente sofra a punição do culpado.

Mesmo uma pessoa que tenha de boa fé comprado com desconto não pode cruzar os braços e dizer para a aérea: “Problema seu. Vire-se para resolver o meu problema. Eu é que não vou ser prejudicado.”

Acerta a empresa ao afirmar que também foi uma vítima. Quem causou o problema foi quem roubou o código do cliente a quem era dirigido, e o divulgou nas comunidades sociais. São esses, e não a empresa aérea, que deveriam ser o alvo da fúria de algum inocente que tenha sido vítima do engodo.

Esse talvez é o ponto mais polêmico. Não deveria ser. Mas geralmente é, porque o brasileiro tem a mania de achar que, numa relação comercial, a parte menor e mais frágil sempre tem direito a cobrar soluções da parte maior.

Vi muita gente cobrando soluções das aéreas, mas não vi ninguém se esforçando minimamente para obter os dados pessoais daqueles que divulgaram o código (o que não deve ser muito difícil) para lhes acionar judicialmente pelos danos causados. Porque essa seria a via mais díficil, embora a mais justa. Mas ninguém quer saber de justiça. É mais fácil acionar o prestador de serviços, mesmo sendo ele igualmente uma vítima.

Enfim, esse é um exemplo de como a Torá de YHWH pode ser aplicada em nosso dia-a-dia. Nem sempre ela andará junto com a conveniência. Nem sempre ela será politicamente correta. Nem sempre ela corresponderá à lei dos homens (e como não sou advogado nem jurista, a lei civil não me cabe discutir).

Mas, para nós, elas são as palavras da vida. E somente transformando nossas vidas pelos preceitos nela encontrados seremos capazes de andar em retidão, ou ter alguma esperança de que um dia as coisas possam ser diferentes.

Não se trata de defender a aérea. Se trata de defender o que é certo, de forma clara e imparcial.

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