A Tragédia em S. Maria

lutoI – Introdução

Há pouco tempo, o Brasil parou, estarrecido, para assistir às cenas de horror da tragédia em S. Maria, no Rio Grande do Sul, que ceifou as vidas de centenas de jovens, num incêndio numa casa noturna.

Como costuma acontecer no Brasil, imediatamente após o evento em questão, inciou-se um verdadeiro jogo de empurra sobre onde reside a culpa pelo incidente ocorrido.

Evidentemente, este pequeno texto não se propõe a resolver essa questão. Até porque, geralmente uma tragédia dessas proporções costuma ter vários erros e vários responsáveis, uns em maior, outros em menor grau.

O objetivo, contudo, é observar alguns preceitos da Micrá (Escritura) que se aplicariam a essa situação, e como pela lógica israelita se avaliaram algumas questões que foram apresentadas.

II – Segurança

“Quando construíres uma casa nova, farás um parapeito para o teu telhado, para que não traga sangue sobre a tua casa, se algum homem cair de lá.” (Devarim/Deuteronômio 22:9)

Não poderíamos deixar de começar por esse preceito básico que YHWH já havia ensinado para os filhos de Israel desde o princípio: A Torá não apenas se preocupa em estabelecer uma norma básica de segurança, como ainda indica que a responsabilidade de garantir que a construção ofereça segurança a quem está no local é do dono.

Se a casa não tinha a estrutura necessária para oferecer a segurança adequada para aquele tipo de atividade, então a responsabilidade pela morte das pessoas paira sobre o dono do estabelecimento.

III – Ganância

“Aquele que tem ganância por lucro atribula a sua própria casa, mas aquele que odeia suborno viverá.” (Mishlei/Provérbios 15:27)

Outro ponto importante é que a Micrá (Escritura) nos indica que a ganância é fonte de tribulação.

Houve testemunhas que afirmaram que a superlotação era constante naquele local. Superlotar um estabelecimento comercial tem um nome: ganância. E a ganância traz destruição sobre a vida não apenas da própria pessoa, como também de quem está próximo.

Se a boate não estivesse superlotada, ou se as obras no estabelecimento tivessem sido feitas para comportar um maior número de frequentadores, a tragédia, no mínimo, teria sido bem menor.

Se, portanto, a família do dono da boate, ou ele próprio, está passando por algum tipo de sofrimento ou tribulação, é importante ressaltar que ele tem inteira responsabilidade por isso, pois foi ganancioso ao tentar maximizar seus lucros, e reduzir seus gastos.

IV – Responsabilidade

“Se um fogo se irrompe e encontra espinhos, e uma saca de grãos, ou grãos de pé, ou o campo, for consumido, aquele que acendeu o fogo certamente fará restituição.” (Shemot/Êxodo 22:5)

O próximo princípio que deve ser observado é o da responsabilidade de quem causa um acidente. Curiosamente, o exemplo que a Torá utiliza para falar desse princípio é justamente o do fogo.

Ao que parece, houve irresponsabilidade por parte do membro da banda que utilizou um fogo de artifício de maneira irregular.

Mas, suponhamos que o uso tivesse sido regular. Mesmo assim, a Torá ensina que aquele que causa uma fatalidade é responsável por indenizar aqueles que tiveram o prejuízo. A Torá não especifica que isso só ocorra quando a pessoa agiu ou não de forma irresponsável.

Sendo assim, pela Torá, caberia uma indenização por parte do autor do disparo do fogo de artifício às vítimas, e aos seus familiares.

Não entrarei aqui na questão de valores da indenização, pois isso por si só seria um tema extenso demais para ser tratado em uma pequena reflexão. Até porque a Torá também estabelece um limite para dívidas pessoais – o que também seria assunto para outra ocasião.

V – Suborno

“Não aceitarás suborno; pois o suborno cega aquele que tem visão, e perverte as palavras do justo.” (Shemot/Êxodo 23:8)

Há também suspeitas de suborno, resultando em negligência por parte do poder público. Se isso for comprovado, cabe o comentário abaixo.

O interessante sobre que a Micrá (Escritura) diz a respeito do suborno é que ele é capaz de cegar aquele que tem visão.

Talvez uma das principais coisas que o suborno faça cegar seja exatamente a visão da consequência. Em muitas situações, pequenas propinas aqui e ali são consideradas como eventos corriqueiros, especialmente na rotina de um povo tão imoralmente dado à corrupção quanto o nosso.

Em muitos casos, as pessoas que aceitam suborno não são mafiosos. São pessoas comuns, que você encontraria na padaria, ou na vizinhança do seu bairro. Pessoas que até criticariam esquemas de desvios de verba, e outras situações de corrupção. Porque isso, infelizmente, é quase aceitável na cultura brasileira.

Supondo que alguém tenha aceitado suborno para oferecer algum tipo de licença de operação para a boate Kiss sem que essa estivesse em condições de funcionamento, e supondo que essa pessoa tenha alguma consciência moral, provavelmente essa pessoa estará em estado de choque no atual momento. Porque provavelmente existem dezenas de milhares de casos semelhantes de suborno, nos que nunca ocorreu qualquer problema, por sorte do destino.

Mas as leis de segurança existem justamente para as exceções e adversidades.

A cegueira do suborno é exatamente essa: A tentação de receber o agrado é tão grande que a pessoa é muito fortemente levada a pensar que “isso não é nada”.

A corrupção pode causar consequências irrecuperáveis. Um pequeno suborno, para uma pequena desviada de olhar, em um pequeno caso, não só destruiu a vida de centenas de pessoas, como pode também ter destruído a pessoa que aceitou o suborno, pois se ela for dotada de alguma consciência, terá que conviver com a responsabilidade por tantas mortes, pro resto da vida.

VI – Fanatismo

“Uma língua suavizante é uma árvore da vida; mas se nela houver perversidade, é como a destruição do vento.” (Mishlei/Provérbios 15:4)

Deixei para o final o expressar a minha indignação contra os fanáticos cruzados religiosos que afirmaram que as vítimas faleceram porque estavam cultuando o diabo ou qualquer coisa do gênero.

Nem entrarei no mérito teológico da questão, porque creio não só que não valha à pena, como também que isto também não entre no escopo desta pequena reflexão.

Mas, mesmo que os fanáticos cruzados em questão estivessem corretos, seria mesmo esse o momento oportuno de fazer tais afirmações?

A Micrá (Escritura) nos ensina a diferença entre a língua suavizante, aquela que cura, e a língua repleta de perversidade, cujo objetivo não é trazer alento, mas sim destruição.

Há pessoas que são tóxicas. Gostam de falar mal de tudo, e de todos. Para essas, o pretexto da missão religiosa, ou o do se estar “falando a verdade” se torna uma desculpa para ferir o próximo. Não é assim que devemos agir.

Se alguém deseja de fato ajudar algum familiar de alguma das vítimas, ou alguma vítima sobrevivente, a se aproximar do Criador, que tal oferecer amor em um momento tão doloroso? Certamente que esse seria um gesto que dificilmente se esqueceria, e seria muito mais eficaz do que a insensibilidade.

A fé é como uma faca. A faca pode ser usada para ferir, ou para alimentar. Para tirar vidas, ou para salvá-las. Cabe a cada um refletir como faz uso da sua.

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