Ciclo de Sangue

Martin RichardsO mundo parou, mais uma vez, estarrecido na segunda-feira, com os ataques terroristas em Boston, em um evento que deveria ser de alegria e cooperação, pois eventos esportivos são das poucas coisas que conseguem unir nações de maneira harmoniosa.

As imagens, tão horrendas, de sangue, violência e morte, demorarão para sair da mente daqueles que acompanharam, mesmo de longe, os acontecimentos.

Infelizmente, os atos horrendos não pararam por aí, mas perduraram, e perduram, nos comentários e discussões a respeito do caso, e geralmente se polarizam entre duas posições: Aqueles que acham que os Estados Unidos colhem o que plantam, e aqueles que defendem atos de guerra como resposta.

É claro que os Estados Unidos não são santos. Como, aliás, nunca foi (nem o é) nenhuma nação do planeta em posição de poder. A começar pelo próprio Brasil. Como também não são santas as nações que abrigam terroristas e grupos extremistas.

Porém, é curioso observar a sede das pessoas por sangue. É como se o altar do deus-violência não tivesse sido suficientemente banhado de sangue na segunda-feira. Parece que as pessoas não apenas gostam, mas querem ver sangue derramado, e o discurso ideológico é um mero pretexto para dar vazão ao desejo de ver o circo pegar fogo.

Assim como acontecia com os altares dos deuses católicos na época da Inquisição, o deus-violência também tem como pré-requisito demonizar pessoas, mesmo que isso incorra em generalizações terrivelmente injustas. Resumidamente: Não temos coragem de matar pessoas como nós, mas se acreditarmos piamente que tais pessoas são demônios, o ato é justificado.

Dentro dessa dinâmica, algumas passagens do Tanach se tornam muito relevantes. Comecemos por Yechezkel (Ezequiel), que diz:

“Os seus príncipes no meio dela são como lobos que arrebatam a presa, para derramarem sangue, para destruírem as vidas, para seguirem a avareza.” (Yechezkel/Ezequiel 22:27)

Pense num país cuja política você abomine (seja ele qual for). Eu pergunto: Quem são suas vítimas? Muitas vezes, são as próprias pessoas que nele habitam!

Lembro-me de quando alguns israelenses tiveram a iniciativa de fazer um vídeo declarando amor aos seus irmãos no Irã. E de ver um iraniano responder positivamente ao vídeo, porém com seu rosto coberto, por temer a perseguição do seu governo. Imagine viver em um país assim.

Será que as pessoas de tais lugares acordam de manhã e pensam, com requintes de crueldade, no que fazer para nos maltratar? Digo, será que todos são assim?

Ou será que há gente, como nós, que está preocupada com como levar o filho para escola e chegar no horário no trabalho? Ou com quê dinheiro irá pagar a conta de luz do mês que vem? Ou ainda, como salvar seu casamento, que anda despedaçado?

É mais fácil demonizar, do que pensar que tais pessoas podem ser semelhantes a nós. Porque precisamos de demônios, para não sentirmos culpa ao apresentarmos nossos sacrifícios no altar do deus-violência.

Será que as pessoas que morreram em decorrência dos ataques à bomba eram pessoas boas, ou ruins? Eram pessoas como nós, ou eram diferentes? E o que dizer daquelas que morrerão em decorrência dos desdobramentos que, certamente, ocorrerão em função de uma ação de defesa? Serão todas pessoas ruins e culpadas? Ou haverá inocentes, como o menino de oito anos que, poucos dias antes, fizera um cartaz pedindo o fim da violência, cuja foto é símbolo desta reflexão?

Quero deixar bem evidente que não entro aqui no mérito de se a defesa é legítima ou não. É claro que eu tenho uma opinião sobre isso! Mas a deixarei propositadamente de fora desta reflexão, porque acredito que aquilo que aqui está em discussão é mais importante do que isso.

Se fomentarmos desenfreadamente a violência, certamente morrerá sangue inocente. E isso nos leva à segunda passagem que aqui destaco:

“Há seis coisas que YHWH detesta; sim, há sete que Ele abomina: olhos altivos, língua mentirosa, e mãos que derramam sangue inocente.” (Mishlei/Provérbios 6:16-17)

Observe como Shlomo (Salomão) não define ideologia, raça, ou nacionalidade quando nos afirma que o Eterno abomina o derramamento do sangue inocente.

Nós, como israelitas, somos chamados para fazermos a diferença neste mundo adoecido e distante de Elohim. E não poderemos fazer isso se aquilo que desejamos não for controlado.

O desejo de violência talvez não seja algo que você consiga deixar de sentir. Mas, ao saber que haverá sangue inocente sendo derramado, talvez você consiga direcionar o seu foco para aquilo que verdadeiramente importa.

O valor da vida humana não pode ficar em segundo plano, atrás de discussões políticas, ou de se apontar se a nação A, B ou C tem razão. É justamente a falta de valor da vida humana que gera esses problemas. Porque se o público em geral fosse menos passivo, a vida humana talvez fosse um pouco menos refém de joguetes políticos, econômicos ou ideológicos.

É preciso que Israel ensine ao mundo que a vida humana é muito preciosa, e insubstituível.

Mas, como faremos isso? Aqui chegamos à terceira passagem ressaltada:

“Apega-te à instrução e não a largues; guarda-a, porque ela é a tua vida. Não entres na vereda dos ímpios, nem andes pelo caminho dos maus. Evita-o, não passes por ele; desvia-te dele e passa de largo. Pois não dormem, se não fizerem o mal, e foge deles o sono se não fizerem tropeçar alguém. Porque comem o pão da impiedade, e bebem o vinho da violência.” (Mishlei/Provérbios 4:13-17)

O Tanach, a chamada Bíblia Hebraica, tem por padrão sempre nos reconduzir à Torah para encontrarmos as respostas.

Para Shlomo HaMelech (o Rei Salomão), por trás da violência, está a iniquidade. E é por isso que ele nos recomenda nos apegarmos à instrução.

E o que podemos encontrar na Torah?

Não irei aqui ter a pretensão de ser capaz de abordar, numa única reflexão, todos os aspectos da Torah que poderiam ser aplicados neste caso. Sendo assim, elegerei uma lição que considero importante, pois entendo que no estudo da Torah devemos gastar tempo para absorver cada verdade:

“De palavras de falsidade te afastarás, e não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio.” (Shemot/Êxodo 23:7)

Já observamos a conexão feita por Shlomo haMelech (o rei Salomão) entre a impiedade e o embriagar-se com a violência.

Se juntarmos as duas lições, percebemos que o Eterno jamais declara justo aquele que não controlar o seu desejo por querer ver o circo pegar fogo.

Repare que não falei em não ter o desejo, pois costumo enfatizar que o pecado não está no ter o desejo, e sim no que fazemos com ele. O Eterno espera que esse desejo seja controlado. Podemos falar de nossa raiva, de nossa ira, mas devemos nos conter quanto a termos posições que enfatizam ou estimulam a violência, por causa do efeito cascata produzido por tais manifestações, especialmente num mundo globalizado e na Era da Informação.

Por que?

Justamente por causa da primeira parte da passagem: Não matarás o inocente e o justo.

Pessoas justas e inocentes sempre morrem, em decorrência de guerras ideológicas. Entenda que toda vez que você estimula a violência, está assinando seu nome na lista de culpados daqueles que morrem, inocentemente, porque houve pressão social por violência.

Isso significa que devemos ser passivos caso sejamos agredidos? É evidente que não! Embora haja religiões que advoguem isso, tal ideia também é contrária à Torah.

Mas isso significa que devemos medir bem nossas palavras, e ter consciência da responsabilidade sobre aquilo que dizemos, ou incentivamos. Porque tais coisas geram efeitos cascata.

E se temos consciência de que nossa postura gera efeito cascata, então que tal nos utilizarmos desse conhecimento para propagarmos os valores da Torah, conforme Elohim espera de nós?

Valores de justiça, de profundo apreço pela vida humana, e de um retorno a uma vida conduzida pela Instrução (Torah) que nos conecta a Ele.

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