Ecos da Revolução

manifestacaoAs manifestações populares da última semana estarreceram muita gente. O que alguns julgavam ser um simples protesto por conta de um aumento de vinte centavos parece ter, na realidade, sido a gota d’água na vida de um povo tão sofrido e abusado por seus governantes.

É importante deixar claro ao leitor que este texto não terá qualquer conotação político-partidária. Primeiro porque o autor deste texto não considera muito saudável misturar fé com agremiação política, e segundo porque, para ser bem sincero, o autor deste texto sofre de uma profunda decepção com todos os segmentos da política nacional.

Esta pequena reflexão procura unicamente analisar, a partir das Escrituras, a relação de causa e efeito dos protestos em questão.

O Tanach, a chamada Bíblia Hebraica, é um livro antes de mais nada extremamente revolucionário e vanguardista.

Nas civilizações antigas, os reis das nações eram chamados de divinos. Eram considerados deuses, ou filhos de deuses. Déspotas divinos que deveriam ser temidos e obedecidos, caso contrário não seriam apenas dignos de punição, como ainda de torturas e castigos da parte dos deuses.

O Tanach já começa a revolução do pensamento ao declarar não a apenas um governante, mas a TODO o povo:

“Então dirás a Faraó: Assim diz YHWH: Israel é meu filho, meu primogênito.” (Shemot/Êxodo 4:22)

A frase, radical, é uma afirmação de igualdade sem precedentes, perante justamente uma figura que se declarava um filho dos deuses.

Não! Todo o povo de Israel é escolhido por YHWH, e cada pessoa importa!

A partir desse ponto, a Torah estabelece algo igualmente revolucionário: A igualdade entre cidadãos. Todos devem se sujeitar a uma mesma lei. Tanto sacerdotes, quanto governantes, e trabalhadores. As penas, pelo descumprimento da Torah (Instrução) não levam em conta o status social.

Sob esse aspecto, é tristemente irônico que uma obra escrita há milhares de anos seja mais justa e humana do que a realidade de boa parte das nações.

A Torah também traz inúmeras responsabilidades para os líderes do povo. A razão da enormidade de problemas no Brasil, que trouxeram à tona um sentimento de exaustão por parte da população, se resumem exatamente no não-cumprimento desses elementos. Observem:

“Não desviarás o direito do teu pobre. Da falsa acusação te afastarás; não matarás o inocente e o justo, e não justificarás o culpado. Não aceitarás suborno, porque os subornos cegam até os perspicazes e pervertem as palavras dos justos..” (Shemot/Êxodo 23:6-8)

“Estabelecerás juízes e escribas em cada uma das cidades que YHWH teu Elohim vai dar para as tuas tribos. Eles julgarão o povo com sentenças justas. Não perverterás o direito, não farás acepção de pessoas e nem aceitarás suborno, pois o suborno cega os olhos do sábio e falseia a causa dos justos. Busca somente a justiça, para que vivas e possuas a terra que YHWH teu Elohim te dará.” (Devarim/Deuteronômio 16:18-20)

O Brasil é o lugar onde réus de grandes esquemas de corrupção podem presidir comitês de ética. É o país onde políticos religiosos rezam para agradecer o suborno. É o país que assassina inocentes, enquanto justifica os imundos. É o país do jogo de interesses, da tramóia, da maracutaia, e de uma democracia que, na realidade, é apenas para inglês ver.

Mishlei (Provérbios) deixa claro que a estabilidade de um governo depende da sua capacidade de ser não apenas compassivo com os necessitados, mas também justo. O Brasil está longe de atingir minimamente qualquer das duas coisas.

“Abominação para os reis é praticar o mal, porque sobre a justiça o trono se firma.” (Mishlei/Provérbios 16:12)

“Amorosidade e Fidelidade preservam o rei; ele sustenta na amorosidade o seu trono.” (Mishlei/Provérbios 20:28)

“Se um chefe dá atenção a palavras mentirosas, seus ministros todos tornam-se perversos. O pobre e o opressor se encontram: é YHWH quem ilumina os olhos dos dois. O rei que julga os fracos com verdade firmará o seu trono para sempre.” (Mishlei/Provérbios 29:12-14)

As passagens acima falam por si, e explicam o momento de instabilidade. O povo, oprimido, é como uma panela de pressão. No exterior, pode parecer que tudo está bem, mas a pressão cada vez maior faz com que, em dado momento, a coisa ameace explodir.

O movimento da insatisfação no Brasil, embora esteja atingindo níveis jamais vistos anteriormente, ainda traz como grande problema a confusão.

Protestar? Sim, dizem as pessoas!

Contra o quê? Não se sabe bem ao certo. Embora todos tenham a sensação de que, como está não é possível ficar, ninguém sabe ao certo o que reivindicar. Há tentativas de se dar um contorno às reivindicações, mas tais coisas têm começado a trazer muita divisão.

As Escrituras também explicam isso:

“Filho do homem, profetiza contra os pastores de Israel, profetiza e dize-lhes: Pastores, assim diz o Adonai YHWH: Ai dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos! Não devem os pastores apascentar o seu rebanho? Vós vos alimentais com leite, vos vestis de lã e sacrificais as ovelhas mais gordas, mas não apascentais o rebanho! Não restaurastes o vigor das ovelhas abatidas, não curastes a que está doente, não tratastes a ferida da que sofreu fratura, não reconduzistes a desgarrada, não buscastes a perdida, mas dominastes sobre elas com dureza e violência.” (Yechezkel/Ezequiel 34:2-4)

Como ovelhas sem rumo nem direção, o povo brasileiro está atordoado. Não sabe bem o que fazer, e como corrigir os problemas.

A resposta para isso é: Não devemos nos calar. Devemos buscar a justiça e denunciar a injustiça! Há religiões que pregam a passividade diante dos governantes, como se todo governante fosse estabelecido sobre a nação pela eleição do Eterno. Não é bem assim.

Todos nos ansiamos pelo dia em que o Eterno trará juízo sobre este país corrupto e imundo. Porém, para que possamos construir um futuro melhor, um futuro digno, devemos dar o exemplo com nossas próprias vidas.

Aproveite a revolução externa, para promover também uma revolução interna, pois as Escrituras dizem:

“Tornai-vos para Mim, e Eu me tornarei para vós, diz YHWH Tseva’ot” (Malachi/Malaquias 3:7)

A única chance que temos de construirmos um futuro digno para esta nação é se levarmos a luz da Torah (Instrução) adiante, para que pelo exemplo de justiça e dignidade possamos influenciar outros.

Porque todo governante sai do meio do povo, e se as raízes não forem tratadas, de nada adiantará podar os galhos. Mesmo que a poda seja necessária e justificável.

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