O Tanach e os Sentimentos Humanos – Parte I

angry-boyI – Introdução

As Escrituras do povo de Israel divergem muito de outras revelações e religiões em um aspecto bastante interessante: a exposição do caráter bastante humano daqueles que se relacionam com Elohim.

Na mitologia, é comum que personagens sejam apresentados como tendo características divinas, ou como sendo pessoas tão santas e amorosas que, dada a oportunidade, flutuariam a alguns palmos do chão.

Não é assim, todavia, com a história de nosso povo. Os patriarcas de Israel foram extremamente erráticos. Possuíam altos e baixos. Eram homens, na melhor das hipóteses, bastante imperfeitos. O que torna o relacionamento com o Criador algo baseado quase que totalmente na Sua graça e misericórdia – conceito esse de que posteriormente outras religiões iriam se apropriar e tomar como inovação.

Temas como a imperfeição humana, o ódio, os conflitos, e até mesmo a sexualidade, são abordados com bastante naturalidade pelo Tanach. E é sobre isso que pretendo discorrer um pouco.

Um dos aspectos mais sórdidos e perversos da escravidão imposta por algumas religiões está na ideia de que nossos próprios sentimentos são imundos, e que só de determinados pensamentos virem à nossa mente, mesmo que fora de nosso controle, somos pecadores, dominados pelo suposto mal que habita em nós. Nada mais estranho, porém, ao pensamento do Tanach.

Você já reparou que a Torá é bastante detalhista sobre os tipos de pecado, mas não traz uma palavra sequer sobre o suposto “pecado de um pensamento ter te vindo a mente” ou “pecado de ter um sentimento”? No entanto, o sentimento de culpa por tais coisas traz muito sofrimento.

A fé israelita, antes de mais nada, é uma fé prática. Você é responsável pelo que faz, não pelo que sente, ou pelos pensamentos que vêm à sua mente quando você menos espera. Suas ações definem quem você é.

II – Ocultando Sentimentos?

Uma das coisas mais belas que lemos no Tanach é a liberdade com que os nossos antepassados falam com Elohim sobre os seus sentimentos mais íntimos. E eles não tentam esconder tais sentimentos nem mesmo de outros homens.

Muito antes de imperar sobre o mundo a hipocrisia da aparência, o israelita sabia que, no fundo, todos os seres humanos pensam e sentem as mesmas coisas. E se é assim, por que ocultar? Por que se envergonhar de algo que é absolutamente humano?

A Torá nos proíbe nos vingarmos de nossos próprios irmãos:

 “Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o YHWH.” (Vayicrá/Levítico 19:18)

No entanto, David haMelech (o rei), quando foi traído por seus próprios amigos que anteriormente o adulavam, ficou tão irado que disse:

“Pois não é um inimigo que me afronta, então eu poderia suportá-lo; nem é um adversário que se exalta contra mim, porque dele poderia esconder-me; mas és tu, homem meu igual, meu companheiro e meu amigo íntimo. Conservávamos juntos tranquilamente, e em companhia andávamos na casa de Elohim. A morte os assalte, e vivos desçam ao She’ol; porque há maldade na sua morada, no seu próprio íntimo.” (Tehilim/Salmos 55:12-15)

Será que David ignorou a Torá, ao desejar que aqueles que o traíram fossem destruídos? É claro que não!

A Torá não nos proíbe de sentirmos raiva. A Torá sequer nos proíbe de expressarmos em palavras a nossa raiva. A Torá também não nos diz para engolirmos em seco e ficarmos vermelhos enquanto ouvimos aquele que nos agrediu invocar chavões e dizer que “não perdoar é falta de amor.”

Perdoar, não guardar ira, amar o próximo, na concepção semita de tais conceitos, se referem a ações práticas, e não a sentimentos. Porque ninguém controla sentimento. Mas todos podemos controlar nossas ações.

Como profissional de saúde mental, posso afirmar que se ilude aquele que acredita ser capaz de controlar a raiva, ou mágoa, que sente de alguém. Podemos controlar o que fazemos com ela. Mas, tentar fingir que nada sentimos é das coisas mais nocivas que podemos fazer conosco. Porque o sentimento ou irá se tornar sintoma psicossomático, ou irá se manifestar de alguma forma alheia ao nosso controle. Por exemplo, uma pessoa que é obrigada a engolir calada os insultos de seu chefe pode desenvolver uma gastrite, ou pode inexplicavelmente passar a brigar com sua esposa e filhos ao chegar em casa.

Mas David sabia que ele não precisava se envergonhar de sentimentos de ira. Pelo contrário, observe mais uma de suas declarações:

“Mas aqueles que procuram a minha vida para a destruírem irão para as profundezas da terra. Serão entregues ao poder da espada, servidão de pasto aos chacais.” (Tehilim/Salmos 63:9-10)

Agora, imagine alguém nos dias de hoje fazendo tal oração em público: “Senhor, desejo que os meus inimigos morram devorados por chacais.” 

Certamente essa pessoa seria motivo de grande escândalo. As reações dos demais provavelmente alternariam entre dizer que ela ficou biruta, que falta amor no coração, ou qualquer outra coisa do gênero. Razão pela qual muitas pessoas têm até mesmo uma certa vergonha de algumas passagens bíblicas.

Têm vergonha, mas não deveriam. Porque a hipocrisia religiosa quer impedir o ser humano de ser humano. E é isso que muitas vezes é responsável por tantos males, e por tantas decepções.

David, todavia, sabia que seria inútil tentar ocultar de Elohim o que ele sentia. Melhor desabafar perante o Eterno.

Será que David não conhecia a misericórdia e a compaixão? É claro que sim:

“Porque tu, Adonai, és bom, e pronto a perdoar, e abundante em benignidade para com todos os que te invocam.” (Tehilim/Salmos 86:5-6)

A compreensão das Escrituras passa por entender todo o contexto em que algo foi escrito. Não devemos ler os desabafos de David em momentos de angústia como promessas de que Elohim irá de fato transformar em pasto para chacais todos aqueles que já cometeram para conosco atos de traição. É claro que haverá um juízo, e que Elohim se vingará dos iníquos. Porém, não é essa a principal lição a ser aprendida.

O mais importante é observarmos a liberdade que David possuía de expressar a Elohim toda a raiva que ele sentia. Ele expõe toda a sua frustração, toda a sua angústia, e declara perante Elohim tudo aquilo que ele desejava, sem temer. Porque não é pecado desabafar em sinceridade. Nunca foi, e nunca será. Pelo contrário, às vezes o desabafo é aquilo que nos permite extravasar a raiva, e pode até nos impedir de pecar.

III – Ódio e Controle

Alguns podem se perguntar: Por que Elohim me criou com capacidade para odiar? Por que não remove de mim toda a raiva e me transforma em uma pessoa capaz unicamente de amar?

Na concepção semita, não existe batalha entre o bem e o mal dentro de nós. Isso é inerente ao pensamento grego. O que existe, na mentalidade semita, é a responsabilidade de exercermos domínio sobre o que pensamos e sentimos, e assim controlar nossas ações.

A raiva é um mecanismo fundamental para impedir que soframos ou, mais importante ainda, para nos fazer defendermos os fracos, e para nos impedir que nos calemos diante das injustiças. Por exemplo, temos o caso de Moshe (Moisés):

“Então vieram os pastores, e expulsaram-nas dali; Moshe, porém, levantou-se e defendeu-as, e deu de beber ao rebanho.” (Shemot/Êxodo 2:17)

Raiva, ira, mágoa, ciúmes e todo e qualquer mecanismo que faz parte da natureza humana não é inerentemente bom nem ruim. Sentir tais coisas não deve ser motivo de culpa. São apenas elementos que nos tornam humanos. O que é bom ou ruim é o que fazemos com eles.

E termos a liberdade de expormos os nossos sentimentos perante Elohim é, sem dúvida alguma, uma boa solução para extravasarmos tais coisas.

IV – A Lição de David

Não tenha medo, nem se sinta mal de falar francamente a Elohim. Você não irá atrair o mal sobre sua vida, nem deve se apegar à superstição de que proferir essas palavras para Ele, num desabafo, irá causar malefícios – o que seria uma idolatria ao poder das palavras. A Torá não nos julga por nossos pensamentos, nem por nossos sentimentos, mas sim por nossas ações.

Essa é uma das principais lições que David nos deixou: Podemos ter em Elohim o nosso principal confidente.

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