A Nobreza da Fé

Tristeza. Decepção. Sensação de inferioridade, e de exclusão.

Esses são alguns dos sentimentos comuns a quem se aproxima do estudo da Torah, e não é judeu de origem.

Muitas dessas pessoas se sentem como pessoas de classe inferior, diante do que, para elas, é uma suposta superioridade de quem nasceu judeu, ou é considerado como tal pela comunidade judaica.

Essa sensação é preocupante por duas razões. A primeira delas é porque pode acabar desanimando uma pessoa que tanto batalhou para servir ao Eterno e cumprir os preceitos que Ele revelou a Israel. E isso pode acabar fazendo com que uma pessoa que havia progredido espiritualmente (por assim dizer) retroceda em sua jornada, mesmo após ter atingindo um nível extraordinário.

A segunda é que porque isso simplesmente não é verdade, segundo as Escrituras.

É verdade, sou o primeiro a admitir, que muitas vezes a comunidade judaica é tão fechada que parece àquele que deseja se unir a Israel uma tarefa quase hercúlea. Mas isso tem uma boa razão de ser: Infelizmente, ao longo dos séculos Israel sofreu inúmeras perseguições, e até hoje há pessoas que desejam se infiltrar para converter judeus, ou minar as bases do povo de dentro pra fora. Isso, infelizmente, tem um preço.

Independentemente dessas barreiras e dificuldades serem justas ou não, isso não deve ser confundido com um desprezo por aquele que se converte.

A maior honra que existe no meio do povo de Israel não cabe a quem é um ezrach (natural), e sim ao guer (prosélito) que toma parte no povo.

Sobre isso, um comentarista chamado Yefet Ben Eli, do século X, numa brilhante exposição sobre a nobreza daqueles que, contrariando todas as circunstâncias em que viveram, optam por seguir ao Eterno, afirmou:

“Agora, por Sua exaltada e incomparável natureza, [YHWH] escolheu os mais fracos e mais pobres homens e os honrou acima de todos os outros por causa de sua obediência aos Seus mandamentos, conforme está escrito: Porque a minha mão fez todas estas coisas, e assim todas elas foram feitas, diz YHWH; mas para esse olharei, para o pobre e abatido de espírito, e que treme da minha palavra. (Is. 66:2). Se à essa pobreza e devoção forem adicionadas também nobreza de descendência, então o servo de Elohim adquire dupla nobreza, como a nobreza dos filhos de Israel, que abrangem os nossos antepassados, nossas raízes, nossas tribos originais, nossos reis, e nossos sábios.

Encontramos ainda que a nobreza da fé é maior do que a de descendência, uma vez que encontramos pessoas de descendência nobre que às vezes são removidas de suas posições altas por causa de seus atos de desobediência ao Eterno. Também encontramos que mesmo aquele que se converte à fé judaica às vezes atinge uma posição alta por causa da sua obediência a Elohim, como é o caso de Yitro (Jetro), que adquiriu um bom e grande nome e posição exaltada por causa de sua crença em, e obediência a, Elohim, como explicamos em nosso comentário sobre: Ora Yitro […] ouviu ouviu todas as coisas que Elohim tinha feito a Moshe e a Israel. (Ex. 18:1)

Tudo isso se aplica não apenas a homens, mas também a mulheres; como por exemplo Ya’el (Jael) acerca de quem a profetiza Devorah (Débora) em seu Cântico fala de uma maneira que demonstra que ela adquiriu uma grande posição na estima de Elohim, conforme está escrito: Bendita seja entre as mulheres, Ya’el, mulher de Chever, o queneu; bendita seja entre as mulheres nas tendas. (Jz. 5:24)

Isto também é verdade acerca da mulher cuja história estamos prestes a explicar, segundo o que está contido no livro que leva o nome dela – Rut – no qual se demonstra a excelência da sua mente, conduta, e fé, pelos quais o Senhor dos mundos uniu seu destino à do homem nobre, Boaz, que foi um antepassado do rei Dawid, de modo que Rut se tornou sua esposa. Assim será demonstrado que a nobreza da fé tem precedência sobre a nobreza da descendência. Bendito, portanto, é aquele que se dedica à fé e faz dela a sua força e o seu refúgio, conforme está escrito: Armai-vos de pureza para que Ele não se ire e vós pereçais no caminho, pois num momento Sua irá se acenderá; os elogios são de todos os que se refugiam nEle. (Sl. 2:12)” (Comentário de Rut – Prelúdio)

De fato, observem o que diz Yeshayahu haNavi (o profeta Isaías):

“E não fale o filho do estrangeiro, que se houver unido a YHWH, dizendo: Certamente YHWH me separará do seu povo; nem tampouco diga o eunuco: Eis que sou uma árvore seca. Porque assim diz YHWH a respeito dos eunucos, que guardam os meus Shabatot, e escolhem aquilo em que eu me agrado, e abraçam a minha aliança: Também lhes darei na minha casa e dentro dos meus muros um lugar e um nome, melhor do que o de filhos e filhas; um nome eterno darei a cada um deles, que nunca se apagará. E aos filhos dos estrangeiros, que se unirem a YHWH, para o servirem, e para amarem o nome d YHWH, e para serem seus servos, todos os que guardarem o Shabat, não o profanando, e os que abraçarem a minha aliança, também os levarei ao meu santo monte, e os alegrarei na minha casa de oração; os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceitos no meu altar; porque a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos.” (Yeshayahu/Isaías 56:3-7)

Um prosélito recebe um nome MELHOR do que o de filhos e filhas.

Isso é simples de entender: Eu não tive nenhum mérito em nascer judeu. Claro, tenho mérito de continuar, ou de retornar, às práticas da Torah.

Porém, um estrangeiro que olha para o Eterno e diz: Quero seguí-Lo. Que olha para Israel, e diz: quero pertencer a este povo. Que olha para a Torah, e diz: Quero observar os seus preceitos. Esse tem um mérito indescritível.

Portanto, um convertido jamais deve se sentir inferior por não ter nascido judeu, ou por ter dúvidas sobre sua judaicidade. Pois a honra de um convertido é MAIOR do que a dos naturais.

Um convertido também jamais deve se sentir excluído ou sozinho, uma vez que ele será honrado de forma maravilhosa pelo próprio Criador.

Nunca, como judeu, me sentirei melhor do que alguém que se converteu. Muito pelo contrário, fico extasiado de saber que há pessoas optando por seguirem ao Eterno, em nobreza de espírito, e desejando seguir uma jornada árdua, porém gratificante.

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