O Fim da Criação

engines_of_creation_by_freelancah“E os céus e a terra foram concluídos, e toda a sua hoste. E concluiu Elohim no sétimo dia* a obra que fizera; e descansou no sétimo dia de toda a Sua obra que fizera.” (Bereshit/Gênesis 1:1-2)

O Texto Massorético, na passagem acima, é no mínimo curioso. Como poderia Elohim concluir sua obra no sétimo dia, se o sétimo dia teria sido o dia que Ele descansou e estabeleceu o Shabat?

Não é incomum, por esta razão, que muitos prefiram as variantes textuais da Torah Samaritana e da Septuaginta, que trazem sexto dia na primeira parte do segundo passuk (versículo). Eu mesmo já fui desta opinião, por ser a solução aparentemente mais simples. Considerando que ha’shevi’i (השבעי) e ha’shishi (הששי) são relativamente semelhantes, é tentador imaginar que há glosa no Texto Massorético.

Mas, aí teríamos uma questão curiosa: Por que uma glosa escandalosa dessas não teria sido corrigido em séculos de transmissão? Não parece fazer muito sentido!

Outros afirmam que a partícula beit também pode significar “até”, ao invés de “em”. Embora esse argumento seja leitura possível, a parte problemática é supor que a expressão significa uma coisa num trecho, e outra no trecho imediatamente adjacente. Não é impossível, mas não me parece a melhor solução.

Estudando o comentário peshatista de Rashbam, algo me ocorreu. Em seu comentário do verso 3, Rashbam afirma:

“O Shabat foi abençoado com todo o bem porque Elohim provera para as necessidades e sustento de todas as criaturas de Elohim.” (Comentário de Bereshit 2:3)

De fato, o Shabat é destinado a toda a criação. Mas, por que Rashbam mencionaria provisão às necessidades e sustento da criação nesta passagem?

Voltei à prancheta na passagem de Bereshit (Gênesis) 2.

Estava habituado, como talvez o leitor também esteja, a ver a expressão bayom hashevi’i (ביום השביעי) – isto é, “no sétimo dia” – uma referência de tempo. Ou seja, Elohim teria concluído a obra ao chegar o sétimo dia.

Mas, e se “bayom hashevi’i” não for visto como uma referência de tempo? E se a ideia for não a de que Elohim concluiu a criação durante o sétimo dia, mas sim a de que é no sétimo dia que a criação se conclui?

Rashbam está correto em sua análise: A criação não estaria completa sem o Shabat. A instituição do Shabat não deixa de ter sido o último ato criativo de Elohim. Com o Shabat, Elohim de fato concluiu o ciclo da vida na terra. Não é, portanto, difícil observar o mérito dessa idéia.

Não quero aqui com isso desmerecer as outras teorias ou leituras. Longe de mim, um escrituralista, fazer tal coisa!

Porém, toda essa reflexão chama a atenção para uma verdade universal, que é justamente a verdade que ocupou o pensamento de Rashbam: A vida não está completa sem o Shabat.

Pense nisso quando refletir sobre a sua própria vida, sobre o seu ciclo semanal. Sem o Shabat, a semana fica vazia. Sem esse momento de podermos parar e contemplar a Elohim, à Sua criação e a grandiosidade do Seu Ser, a vida fica vazia.

Não à toa, inúmeras doenças psicossomáticas estão associadas a um tipo de estresse muito peculiar da vida moderna: a falta de tempo.

Muitas coisas na Torah são reguladas no âmbito do direito. O Shabat, no entanto, aparece como obrigatório. E se foi feito para o nosso bem-estar, por que é obrigatório, e não apenas um direito?

O Criador é sábio! Eliminar o Shabat, esse abençoado repouso contemplativo, é como deixar de consumir uma vitamina essencial. Nossos corpos não foram feitos para a ausência de Shabat, assim como não foram feitos para funcionar sem os nutrientes que adquirimos na alimentação.

Viver o Shabat não é perder tempo, é ganhá-lo. É se reencontrar com algo que há muito estava perdido: O Fim da Criação.

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